segunda-feira, 1 de abril de 2013

Além de receber alunos com deficiência, escolas precisam acolhê-los


Imagem: Agência Brasil

Por lei, todas as escolas do país devem aceitar alunos com deficiência ou com doenças crônicas. Nos últimos quinze anos, houve grandes avanços nesse sentido: o número de matrículas de estudantes especiais em escolas regulares passou de 43,9 mil em 1998 para 558 mil em 2011.

Mas a realidade mostra que receber estes alunos na escola é apenas o primeiro passo e ainda há muito a ser feito. É preciso também que a escola os acolha e consiga atender satisfatoriamente suas necessidades especiais de aprendizagem. Mas nem sempre o professor e a escola recebem a formação necessária para esse desafio. Por isso, especialistas concordam que a formação de professores para cuidar desses alunos com necessidades especiais é ainda um dos maiores desafios para se alcançar a educação inclusiva.


Há 20 anos, quase não tínhamos crianças com síndrome de Down terminando o ensino fundamental. Hoje, felizmente, elas vão muito além e temos que preparar também o professor”, afirma a professora Edicléa Mascarenhas Fernandes, especialista em educação especial que trabalha há 31 anos nessa área. Edicléa ajudou a fundar, em 2004, a disciplina Prática Pedagógica e Educação Inclusiva para todos os cursos de licenciatura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Para ela, essa formação na graduação, pós-graduação e na educação continuada precisa ser obrigatória em todos os cursos de licenciatura.


Para o médico Juan Llerena, o modelo tradicional de ensino é incompatível com a proposta de inclusão e diversidade


Embora defenda a inclusão de crianças especiais nas classes comuns, a pesquisadora alerta que algumas crianças com deficiências múltiplas, por exemplo, podem precisar de atendimento mais restritivo. “Defendo uma inclusão, de acordo com as modalidades existentes na educação especial. Por exemplo, especialistas surdos defendem as classes especiais nas séries iniciais, em função da língua de sinais. O projeto de inclusão não se esgota em estar ou não na classe comum”, explica. “Por isso, a formação é tão importante, para que esta criança tenha o que é melhor para ela”.

A professora se diz otimista e reconhece que o país já avançou muito. "Mas ainda é preciso avançar na garantia de direitos. O acesso ao mundo profissional, por exemplo, ainda é muito restrito”, lamentou Edicléa.

Para Juan Llerena, médico chefe do Centro de Genética Médica do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF-Fiocruz), que atende a crianças com todo o tipo de deficiência, a maior preocupação com relação às pessoas com síndrome de down, atualmente é com o adulto jovem que não está mais na escola e nem no mercado de trabalho, e não há escolas profissionalizantes que o recebam. “O que o torna exclusivamente dependente da capacidade criativa e motivadora da família”, afirma ele.


Ele acredita que o Brasil avançou muito na discussão, mas que o modelo tradicional de ensino é incompatível com a proposta de inclusão e diversidade. “A escola tradicional baseia-se no princípio do conhecimento cartesiano, direcionado à produtividade, e crianças com déficit intelectual não vão atender às exigências mínimas que a escola hoje solicita”.

Por isso, Lherena defende programas voltados para a adaptação desses indivíduos na sociedade. Cursos técnicos que priorizam a mão de obra e a prática podem ser muito mais úteis e atraentes para alguns jovens com síndrome de Down.

Dados do Censo da Educação Superior de 2009 mostram que a quantidade de estudantes com algum tipo de deficiência intelectual matriculados em instituições de ensino superior, públicas e privadas, chega a 465. Desse total, 62 estão em instituições federais.

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